ㅤㅤㅤㅤFoi tudo tão repentino. Enquanto eu calmamente tomava meu café após o prazeroso almoço que tive, vi um homem aparentemente bem-sucedido, provavelmente um empresário, abrir um pedaço de papel e ficar apavorado. Não fizera nenhum escândalo, mas seus olhos denunciavam o terror que o afligia. Ele se levantou da cadeira apressado, jogou o papel amassado na lata de lixo e deixou o estabelecimento. Depois disso não sei o que se sucedeu dele, mas eu fui até a mesma lata de lixo e apanhei o papel, desamassando-o para ver qual era seu conteúdo.
ㅤㅤㅤㅤA princípio fiquei estupefato; tratava-se de um sequestro. Durante todo meu período de investigador da polícia na minha vida, vi muitos destes casos. Como eu não tinha o que fazer, resolvi investigar.
ㅤㅤㅤㅤComo já passara da hora do almoço, deduzi que o bilhete se referia às 10:50 da noite ou do dia seguinte. De qualquer forma, ainda tinha nove horas para investigar.
ㅤㅤㅤㅤFui até a estação para ver onde era o lugar marcado. Como esperado, não passava de uma simplória banca de jornal. Entrei na mesma só para ter certeza de que não havia nada de suspeito.
ㅤㅤㅤㅤ─ Olá ─ tentei aparentar o menos suspeito possível ─ você é a dona deste estabelecimento?
ㅤㅤㅤㅤ─ Sim, sou sim. Fátima Zoraide, prazer.
ㅤㅤㅤㅤAquela mulher se empanturrava com doces, especialmente bombons. Era perceptível devido às inúmeras embalagens vazias jogadas pelo chão.
ㅤㅤㅤㅤ─ Sou... ─ eu não podia dizer meu nome verdadeiro. Apesar de ser um ex-investigador sem futuro, não sou burro ─ Felipe Ferreira, prazer. Posso saber que horas fechará hoje?
ㅤㅤㅤㅤ─ às 10:30, senhor.
ㅤㅤㅤㅤAchei estranho, já que bancas fecham costumeiramente às 6 da tarde, 6:30 estourando. Agradeci a informação e deixei o lugar, mas enquanti passava pela frente de um barzinho, vi na pequena televisão o plantão de notícias de um canal conhecido. Este dizia que, naquela tarde, o filho prodígio de Paulo Cardoso, o P.C. Júnior, fora sequestrado.Agora eu sabia quem eu estava procurando.
ㅤㅤㅤㅤVoltei para minha casa. Não havia mais nada que eu pudesse fazer além de esperar dar o horário marcado para a entrega do dinheiro.
ㅤㅤㅤㅤPeguei meu revólver que guardava numa gaveta do armário de meu quarto e o coloquei na minha cintura, preso pelo cinto. Sentei na poltrona e aguardei até que meu relógio marcasse 22:10.
ㅤㅤㅤㅤDado o horário, saí de casa e voltei para a estação de trem. Cheguei a tempo de ver a Dona Fátima fechar a banca. Infelizmente minhas suspeitas sobre ela estavam erradas. A mulher, após trancar o estabelecimento, apenas se sentou numa das mesas do barzinho e dispôs um baralho de Tarot em cima da mesa.
ㅤㅤㅤㅤPerfeito! Eu poderia usá-la como "esconderijo" para que não percebessem que eu estava vigiando. Sentei-me à frente dela e pedi para que lesse meu futuro, mesmo não acreditando nessas coisas.
ㅤㅤㅤㅤTudo o que Fátima dizia entrava por um ouvido e saía pelo outro; minha atenção estava toda concentrada na banca.
ㅤㅤㅤㅤUm homem bem muito bem vestido se aproximou da jornaleria fechada, levando uma mala preta consigo. Era hora de agir.
ㅤㅤㅤㅤAgradeci as previsões de Fátima, mesmo que eu não tivesse prestado atenção. Quando estava me levantando, ela puxou-me pelo braço e me disse:
ㅤㅤㅤㅤ─ Cuidado, senhor "Felipe". Não sabe onde está se metendo.
ㅤㅤㅤㅤPuxei meu braço de volta, estranhando as palavras daquela senhora.
ㅤㅤㅤㅤVoltei minha atenção ao rapaz e me escondi em um beco escuro próximo ao ponto de troca.
ㅤㅤㅤㅤOutro homem estranho se aproximou para pegar a mala que supostamente estaria estufada de dinheiro; fiquei apenas observando, mas assim que ele deu meia-volta, levantei-me velozmente e o agarrei pelo agasalho que vestia, puxando-o para o beco, ocultando a nós dois com as sombras.
ㅤㅤㅤㅤ─ Onde está o garoto? ─ Perguntei para o rapaz, segurando-o com força pela gola.
ㅤㅤㅤㅤ─ Não vou falar, velhote. Hehe. Agora me solta antes que acabe se machucando, sim?
ㅤㅤㅤㅤEm meio ao seu desrespeito e sua negligência em responder minha pergunta, fechei minha mão em um punho e desferi um murro em sua face com tanta força que o fez cair no chão. Rapidamente segurei a gola de sua camisa e o levantei novamente.
ㅤㅤㅤㅤ─ Onde está o garoto?! ─ Minha entonação era mais imperativa, como se estivesse ordenando que me respondesse.
ㅤㅤㅤㅤ─ Eu não vou falar! O chefe me mata!
ㅤㅤㅤㅤNão me segurei, fechei a mão direita e esmurrei-o novamente, mas no abdômen ao invés da face, fazendo-o cair de novo. Abaixei-me e ameacei socá-lo mais uma vez, quando fui impedido por sua voz.
ㅤㅤㅤㅤ─ OK! OK! Eu falo! O menino está sendo mantido em cativeiro. João "Cabra" está fazendo-o de refém.
ㅤㅤㅤㅤAo ouvir aquele nome, lembrei0me de quando... de quando meu parceiro de investigações foi assassinado por um criminoso de mesmo nome. Um sentimento de raiva misturado com sede de vingança infectou meu coração como uma praga.
ㅤㅤㅤㅤ─ ONDE?!
ㅤㅤㅤㅤ─ Num casarão abandonado a cinco quarteirões daqui.
ㅤㅤㅤㅤ─ É melhor que não esteja mentido. E se o garoto não estiver bem quando eu chegar lá... vou seguir você.
ㅤㅤㅤㅤDeixeo o rapaz caído no chão e me dirigi para o casarão do qual ele havia dito. Minhas sombrancelhas arqueadas e minha testa enrugada demonstravam uma feição de raiva. Mas, ao dar alguns passos ainda na estação, vi Dona Fátima me olhando. Ela não disse nada, mas seu olhar sim. Diziam que eu era melhor do que isso, que eu não deveria pagar a morte de alguém com outra morte. Foi como se ela soubesse o que eu ia fazer.
ㅤㅤㅤㅤAcreditei em suas "Palavras". Liguei para a central da polícia e relatei a posição do sequestrado, desistindo de perseguí-lo. Foi um momento deveras doloroso para mim, tão perto de adquirir minha vingança... Mas pensei na segurança do jovem P.C.
ㅤㅤㅤㅤSentei-me em um banco da estação, apoiando miha cabeça em minhas mãos e meus braços em minhas pernas. Chorei. Chorei de raiva de mim mesmo. Poderia ter vingado a morte de meu parceiro (e amigo), um momento pelo qual esperava havia tempo. Mas, sabendo que o homem seria propriamente punido, fiquei em paz, apenas observando o lento movimento da estação, pessoas embarcando e desembarcando dos vagões.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤPedro Garcia
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
O Investigador, renascido.
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