ㅤㅤㅤㅤO ano era de 1942, plena Guerra Mundial. Um pai, jovem, acompanhava seu filho num passeio noturno à praia. Seus semblantes eram indecisos, ora esboçavam alegria ─ principalmente o garoto, que degustava de sua primeira visão do mar em um momento único, maravilhado ─ ora esboçavam melancolia. Um barco ao horizonte chamava a atenção dos dois. No meio daquele oceano de águas negras, as luzes vermelhas da embarcação pareciam dançar.
ㅤㅤㅤㅤJá estava ficando tarde, era hora de voltarem.
ㅤㅤㅤㅤNo dia seguinte, após tomarem o café-da-manhã, deixaram a residência para aproveitar o dia antes que fossem separados. Resolveram que a primeira parada era a biblioteca municipal, um lugar enorme, repleto de livros antigos e novos. havia um em especial, velho e surrado, que chamou a atenção do garoto. Sua capa era verde e o título dizia algo em alemão. Pelo pouco que sabia dessa língua, compreendeu o assunto abordado pelo livro. Seu rosto tomou uma aparência triste e enfurecida. Pegou na mão do pai e puxou-o até que deixassem o lugar. O céu cor de âmbar de antes transformara-se em um céu chuvoso; uma chuva fina e leve. Abriram o guarda-chuvas azul e continuaram o passeio. A cada passo, o jovem ficava mais entristecido e angustiado, bem como seu pai, seria o último passeio que faria naquela lugar que tanto ama.
ㅤㅤㅤㅤPerderam a noção do tempo. Quando olharam para o relógio de um restaurante, já era hora do almoço. Resolveram almoçar naquele lugar mesmo, o qual não era de todo mal. Tomaram seus assentos e fizeram o pedido. Durante a confecção do prato, o pai sequer olhou para o filho, com medo de ver aquele rosto triste e ficar ainda mais deprimido, fixando os olhos na mesa e durante o almoço, sequer trocaram palavras. Assim que terminaram de comer, viram que era "a hora".
ㅤㅤㅤㅤEncaminharam-se para a ferroviária sem atrasos. O pai entrou junto do filho num trem com vagões vermelhos para ajudá-lo com a bagagem. Quando faltavam instantes para o trem partir, o pai saiu e ficou olhando seu filho aflitamente pelo lado de fora da janela. O trem partiu. Lentamente ia tomando velocidade e enquanto o garoto acenava para o pai, este bateu continência, na esperança de que seu filho entendesse o motivo da separação.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤPedro Garcia
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Guerra Sem Sentido
Faroeste Sob a Sombra da Lua
(UNICAMP)
ㅤㅤㅤㅤO que estou para narrar não é apenas um caso incomum e misterioso. É também a história de uma fatalidade. Tudo começou em uma tarde clara de outono, quando Theodore Morgenstern, ao chegar em casa, encontrou um estranho conjunto de símbolos inscritos no batente esquerdo da porta da frente. No dia seguinte, o milionário californiano reparou que outros estranhos símbolos haviam sido inscritos no batente direito; no terceiro dia, mais símbolos apareceram no batente esquerdo. Sua esposa, Moonshadow, desde o aparecimento das primeiras inscrições, passava o dia examinando antigos recortes de jornais, enrolada em uma manta indígena, entoando estranhos cânticos.
ㅤㅤㅤㅤNa tarde do quarto dia, Theodore encontrou um novo conjunto de símbolos, agora inscritos na própria porta. Ao entrar em casa, constatouo que Moonshadow havia desaparecido. Procurou imediatamente a polícia. Foi assim que esse estranho caso chegou às minhas mãos. Comecei por tentar decifrar o significado dos símbolos, que descobri fazerem parte de um código alfabético. Consegui decifrar algumas palavras como (the) PAST (is) BACK DEAD no batente esquerdo e "GO AWAY", "VENDETTA" no batente direito. Mas, e os desenhos no centro da porta? Certamente não se tratava do mesmo código...
ㅤㅤㅤㅤBlakcwater andava muito vazia ultimamente. Com medo do autor daqueles símbolos, as pessoas mal saíam de suas casas, até mesmo o Saloon estava fechado. De uma pequena cidade desenvolvida, qualquer visitante em seu cavalo pensaria que aquela se tornara uma cidade-fantasma.
ㅤㅤㅤㅤEra manhã quando um de meus assistentes, ou capangas, como alguns os chamavam, entrou desesperado em meu gabinete.
ㅤㅤㅤㅤ─ Xerife, os nativos raptaram o Sr. Morgenstern!
ㅤㅤㅤㅤ─ Tem certeza disso, Dalton?
ㅤㅤㅤㅤ─ Sim! Eu os vi carregando o Sr. Morgenstern amarrado em seu cavalo. Também disseram que deveríamos nos encontrar com eles na cabana da Floresta se o quisermos vivo!
ㅤㅤㅤㅤ─ Já chega! ─ Disse irritado. ─ Esses nativos apavoram MINHA cidade e depois raptam um de meus cidadãos?! Vamos Dalton, ninguém vai sair impune por badernas em Blackwater!
ㅤㅤㅤㅤ─ Sim senhor, Sr. Marshall!
ㅤㅤㅤㅤTerminado o relato de meu assistente, pedi para que chamasse os outros. Assim que partiu para cumprir o que ordenei, equipei-me com uma pistola e uma espingarda de longo alcance. Quando deixei o departamento, montei em meu cavalo com pêlos tão negros quanto a noite mais combria do inverno e, junto de meus quatro capangas, invadimos floresta a dentro em busca da cabana, o que não foi de todo complicado, uma vez que havia uma estreita estrada de terra que nos encaminhava até lá.
ㅤㅤㅤㅤAssim que chegamos, fomos recebidos pelos nativos. Se bem que não pareciam nativos... foi quando realizei que não eram índios, mas membros da gangue de Van Ferrier, que era composta por nativos, de fato, mas estes já eram mais civilizados que os demais, algo comum no Faroeste Americano.
ㅤㅤㅤㅤEntrei na cabana com dois capangas, enquanto os outros dois permaneceram no exterior, fazendo a vigia. Haviam três da gangue de Van Ferrier: enquanto um segurava Theodore, o outro apontava uma arma para sua cabeça e o terceiro começou a falar.
ㅤㅤㅤㅤ─ Nós capturamos Moonshadow, a traidora. Theodore também foi capturado para pagar pela traição de sua esposa.
ㅤㅤㅤㅤ─ Ora, vamos, soltem-o. Pensei que fossem civilizados!
ㅤㅤㅤㅤ─ Civilizados? Quer dizer que somos como vocês, engomadinhos da cidade? Van Ferrier apenas nos mostrou a verdade e muniu com armas melhores. Ainda somos os que chamam de "nativos", senhor "xerife".
ㅤㅤㅤㅤNaquele isntante, o que apontava a arma para a cabeça de Theodore puxou o gatilho. No mesmo momento, eu e meus dois capangas sacamos nossas armas e rapidamente atiramos antes que pudessem reagir. Saímos da cabana correndo e montamos em nossos cavalos, juntos com os outros dois. Era uma emboscada! De trás das pedras e árvores, membros da gangue de Van Ferrier surgiram e começaram a atirar em nós. Corremos o mais rápido que nossos cavalos podiam suportar, chegando à cidade, por sorte, sem nenhum arranhão. Perdemos Theodore.
ㅤㅤㅤㅤTudo permaneceu calmo por alguns dias em Blackwater, sem sinal de movimento da gangue de Van Ferrier. Até que um nativo, montado em um cavalo de baixa qualidade, surgiu na porta da delegacia atirando para cima e então foi embora. Em instantes, e e mais uns doze patrulheiros estávamos perseguindo-o, chegando à base da gangue. Era outra emboscada, mas estávamos prontos. Eram muitos, fomos recebidos por uma relva de tiros por todos os lados; os devolvíamos com mesma intensidade, executando boa parte deles.
ㅤㅤㅤㅤAo invadirmos o HQ, demos de cara com mais capangas e, ao fundo, ninguém mais, ninguém menos, que Van Ferrier, um homem parrudo, com um bigode vislumbrante, carregando uma machine gun, ao lado de Moonshadow que morria lentamente, sufocada pela corda em seu pescoço.
ㅤㅤㅤㅤFoi uma guerrilha terrível, perdi alguns de meus homens, mas Van Ferrier perdeu todos. Não tinha tempo a perder, tinha de fazer algo, a Moonshadow morreria, no entanto, não era viável nenhuma aproximação. Saquei minha espingarda e corri contra o tempo, mas no final consegui acertar a corda num tiro certeiro, livrando-a do sufoco. Ao mesmo tempo, meus homens atiraram em van Ferrier, que não suportou e faleceu.
ㅤㅤㅤㅤAgora estava tudo resolvido. Peguei Moonshadow toda ferida em meus braços e a levei em segurança para Blackwater, onde seria tratada pelos médicos. A notícia de que o líder da gangue teria morrido acalmou as pessoas, tornando Blackwater a mesma cidade movimentada que era antes.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤPedro Garcia
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Casamento Sangrento
ㅤㅤㅤㅤMinha mãe era uma mulher calma e compreensiva. Não tinha outro passatempo favorito senão cuidar de suas flores, orquídeas belíssimas. Sempre que eu ou minha irmã precisávamos, ela estava lá para nos dar apoio. Contudo, nunca consegui esquecer aquele dia.
ㅤㅤㅤㅤEra um dia especial, meus pais iriam completar 25 anos de casados. Várias pessoas foram lá em casa para comemorar aquele dia especia: meus avós, meus tios e tias, meus primos... Muita gente mesmo. Todos trouxeram presentes muito legais, mas um que chamou bastante atenção foi uma faca toda de prata.
ㅤㅤㅤㅤMinha mãe nos chamou para jantar. Ninguém quis esperar, saíram em disparada para a sala de jantar, de onde um cheiro incrivelmente apetitoso era emitido. Tomamos nossos assentos na grande mesa e nos preparávamos para servirmos com os quitutes deliciosos sobre a mesa.
ㅤㅤㅤㅤNaquele momento, ela fez algo que ninguém esperaria: pegou a faca de prata que recebera de presente e esfaqueou meu pai. Hoje sei que foi porque ela descobriu que ele a traía, mas, na época, não tinha a mínima noção. Todos ficaram horrorizados com a cena. Lembro-me que minha irmã gritava desesperada e minha avó materna desmaiou.
ㅤㅤㅤㅤIncrivelmente, aquelas brutas 18 facadas formaram a imagem de uma orquídea no peito de papai.
ㅤㅤㅤㅤEnquanto meu tio tentava ligar para a polícia e meu avô para a ambulância, mamãe continuava encarando o corpo já sem vida do meu pai dizendo furiosamente coisas como: "por que me traiu?!" ou "olha o que me fez fazer!"
ㅤㅤㅤㅤA polícia chegou e ela foi presa. Aquele dia ficou marcado para sempre em nossas lembranças. Já faz 15 anos que ela está presa, vou visitá-la de vez em quando, quando não é minha irmã que vai.
ㅤㅤㅤㅤEla me diz estar arrependida, mas ainda tem 5 anos de pena para cumprir.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤPedro garcia
O Investigador, renascido.
ㅤㅤㅤㅤFoi tudo tão repentino. Enquanto eu calmamente tomava meu café após o prazeroso almoço que tive, vi um homem aparentemente bem-sucedido, provavelmente um empresário, abrir um pedaço de papel e ficar apavorado. Não fizera nenhum escândalo, mas seus olhos denunciavam o terror que o afligia. Ele se levantou da cadeira apressado, jogou o papel amassado na lata de lixo e deixou o estabelecimento. Depois disso não sei o que se sucedeu dele, mas eu fui até a mesma lata de lixo e apanhei o papel, desamassando-o para ver qual era seu conteúdo.
ㅤㅤㅤㅤA princípio fiquei estupefato; tratava-se de um sequestro. Durante todo meu período de investigador da polícia na minha vida, vi muitos destes casos. Como eu não tinha o que fazer, resolvi investigar.
ㅤㅤㅤㅤComo já passara da hora do almoço, deduzi que o bilhete se referia às 10:50 da noite ou do dia seguinte. De qualquer forma, ainda tinha nove horas para investigar.
ㅤㅤㅤㅤFui até a estação para ver onde era o lugar marcado. Como esperado, não passava de uma simplória banca de jornal. Entrei na mesma só para ter certeza de que não havia nada de suspeito.
ㅤㅤㅤㅤ─ Olá ─ tentei aparentar o menos suspeito possível ─ você é a dona deste estabelecimento?
ㅤㅤㅤㅤ─ Sim, sou sim. Fátima Zoraide, prazer.
ㅤㅤㅤㅤAquela mulher se empanturrava com doces, especialmente bombons. Era perceptível devido às inúmeras embalagens vazias jogadas pelo chão.
ㅤㅤㅤㅤ─ Sou... ─ eu não podia dizer meu nome verdadeiro. Apesar de ser um ex-investigador sem futuro, não sou burro ─ Felipe Ferreira, prazer. Posso saber que horas fechará hoje?
ㅤㅤㅤㅤ─ às 10:30, senhor.
ㅤㅤㅤㅤAchei estranho, já que bancas fecham costumeiramente às 6 da tarde, 6:30 estourando. Agradeci a informação e deixei o lugar, mas enquanti passava pela frente de um barzinho, vi na pequena televisão o plantão de notícias de um canal conhecido. Este dizia que, naquela tarde, o filho prodígio de Paulo Cardoso, o P.C. Júnior, fora sequestrado.Agora eu sabia quem eu estava procurando.
ㅤㅤㅤㅤVoltei para minha casa. Não havia mais nada que eu pudesse fazer além de esperar dar o horário marcado para a entrega do dinheiro.
ㅤㅤㅤㅤPeguei meu revólver que guardava numa gaveta do armário de meu quarto e o coloquei na minha cintura, preso pelo cinto. Sentei na poltrona e aguardei até que meu relógio marcasse 22:10.
ㅤㅤㅤㅤDado o horário, saí de casa e voltei para a estação de trem. Cheguei a tempo de ver a Dona Fátima fechar a banca. Infelizmente minhas suspeitas sobre ela estavam erradas. A mulher, após trancar o estabelecimento, apenas se sentou numa das mesas do barzinho e dispôs um baralho de Tarot em cima da mesa.
ㅤㅤㅤㅤPerfeito! Eu poderia usá-la como "esconderijo" para que não percebessem que eu estava vigiando. Sentei-me à frente dela e pedi para que lesse meu futuro, mesmo não acreditando nessas coisas.
ㅤㅤㅤㅤTudo o que Fátima dizia entrava por um ouvido e saía pelo outro; minha atenção estava toda concentrada na banca.
ㅤㅤㅤㅤUm homem bem muito bem vestido se aproximou da jornaleria fechada, levando uma mala preta consigo. Era hora de agir.
ㅤㅤㅤㅤAgradeci as previsões de Fátima, mesmo que eu não tivesse prestado atenção. Quando estava me levantando, ela puxou-me pelo braço e me disse:
ㅤㅤㅤㅤ─ Cuidado, senhor "Felipe". Não sabe onde está se metendo.
ㅤㅤㅤㅤPuxei meu braço de volta, estranhando as palavras daquela senhora.
ㅤㅤㅤㅤVoltei minha atenção ao rapaz e me escondi em um beco escuro próximo ao ponto de troca.
ㅤㅤㅤㅤOutro homem estranho se aproximou para pegar a mala que supostamente estaria estufada de dinheiro; fiquei apenas observando, mas assim que ele deu meia-volta, levantei-me velozmente e o agarrei pelo agasalho que vestia, puxando-o para o beco, ocultando a nós dois com as sombras.
ㅤㅤㅤㅤ─ Onde está o garoto? ─ Perguntei para o rapaz, segurando-o com força pela gola.
ㅤㅤㅤㅤ─ Não vou falar, velhote. Hehe. Agora me solta antes que acabe se machucando, sim?
ㅤㅤㅤㅤEm meio ao seu desrespeito e sua negligência em responder minha pergunta, fechei minha mão em um punho e desferi um murro em sua face com tanta força que o fez cair no chão. Rapidamente segurei a gola de sua camisa e o levantei novamente.
ㅤㅤㅤㅤ─ Onde está o garoto?! ─ Minha entonação era mais imperativa, como se estivesse ordenando que me respondesse.
ㅤㅤㅤㅤ─ Eu não vou falar! O chefe me mata!
ㅤㅤㅤㅤNão me segurei, fechei a mão direita e esmurrei-o novamente, mas no abdômen ao invés da face, fazendo-o cair de novo. Abaixei-me e ameacei socá-lo mais uma vez, quando fui impedido por sua voz.
ㅤㅤㅤㅤ─ OK! OK! Eu falo! O menino está sendo mantido em cativeiro. João "Cabra" está fazendo-o de refém.
ㅤㅤㅤㅤAo ouvir aquele nome, lembrei0me de quando... de quando meu parceiro de investigações foi assassinado por um criminoso de mesmo nome. Um sentimento de raiva misturado com sede de vingança infectou meu coração como uma praga.
ㅤㅤㅤㅤ─ ONDE?!
ㅤㅤㅤㅤ─ Num casarão abandonado a cinco quarteirões daqui.
ㅤㅤㅤㅤ─ É melhor que não esteja mentido. E se o garoto não estiver bem quando eu chegar lá... vou seguir você.
ㅤㅤㅤㅤDeixeo o rapaz caído no chão e me dirigi para o casarão do qual ele havia dito. Minhas sombrancelhas arqueadas e minha testa enrugada demonstravam uma feição de raiva. Mas, ao dar alguns passos ainda na estação, vi Dona Fátima me olhando. Ela não disse nada, mas seu olhar sim. Diziam que eu era melhor do que isso, que eu não deveria pagar a morte de alguém com outra morte. Foi como se ela soubesse o que eu ia fazer.
ㅤㅤㅤㅤAcreditei em suas "Palavras". Liguei para a central da polícia e relatei a posição do sequestrado, desistindo de perseguí-lo. Foi um momento deveras doloroso para mim, tão perto de adquirir minha vingança... Mas pensei na segurança do jovem P.C.
ㅤㅤㅤㅤSentei-me em um banco da estação, apoiando miha cabeça em minhas mãos e meus braços em minhas pernas. Chorei. Chorei de raiva de mim mesmo. Poderia ter vingado a morte de meu parceiro (e amigo), um momento pelo qual esperava havia tempo. Mas, sabendo que o homem seria propriamente punido, fiquei em paz, apenas observando o lento movimento da estação, pessoas embarcando e desembarcando dos vagões.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤPedro Garcia
A Vizinha
ㅤㅤㅤㅤDarlene, este era o seu nome. Já faz muito tempo que ela se mudou da nossa vizinhança, mas havia algo nela que muito me instigava e eu não gostava.
Uma vez, enquanto jantava com minha família, assisti no noticiário que havia uma serial killer na cidade onde eu morava e moro até hoje. Seus crimes eram cometidos sempre no mesmo horário, às 6 horas da tarde. Não que ele matasse as pessoas na frente dos outros, mas a análise forense que determinou tal horário baseada nas marcas deixadas nos corpos.
ㅤㅤㅤㅤEu tinha uns dezesseis anos. Ao mesmo tempo que achava aquela história de serial killer um máximo, como nos filmes, também o via como uma calamidade; coisa de adolescente, mente indecisa e etc.
ㅤㅤㅤㅤNunca gostei de Darlene. Desde o primeiro momento, quando fui cumprimentá-la no dia de sua mudança, ela mal me recebeu, como se realmente não quisesse contato com ninguém. Mas o dia que deixou definitivo o que eu pensava sobre ela foi na semana seguinte, de madrugada, quando acordei com uma barulheira sem fim. Fui para a janela a fim de descobrir a origem dos ruídos; era a vizinha. Não não pude ver muito bem o que era, pois ela estava dentro da garagem, mas quando saiu, carregava consigo um saco de lixo preto cheio, vazando um líquido rubro e aparentemente viscoso. Fiquei aterrorizado, atônito, mas voltei a dormir, queria esquecer o que tinha visto a qualquer custo.
ㅤㅤㅤㅤNo dia que se sucedeu, na hora do almoço, passou uma reportagem sobre Serial Killer novamente, desta vez com uma nova vítima. Brincando, minha mãe disse: "dizem que a vizinha sai de casa todos os dias às 5 horas da tarde." Foi uma mera brincadeira, mas ela não tinha visto o que eu vi.
ㅤㅤㅤㅤNão falei nada para a minha mãe, pois poderia estar cometendo um equívoco, poderia ser simplesmente uma coincidência, mas mesmo assim desconfiava por causa do saco de lixo.
ㅤㅤㅤㅤVivíamos numa vizinhança relativamente distante da metrópole, onde os crimes eram cometidos. Aproximadamente 40 minutos até lá. Nada impedia que a vizinha levasse 20 minutos a mais para assassinar alguém.
Para ser sincero, nunca descobri a verdade. Meses depois ela acabou se mudando novamente. No entanto, logo após sua mudança, a onda de mortes cessou, o que me deixou muito assustado, com medo, mas mesmo assim muito interessado. Somente eu sabia a verdade?
ㅤㅤㅤㅤSerá que ela matava mesmo as pessoas? E o que havia naquele saco preto? Oh! Eu daria um boi para não ter descoberto nada daquilo, ter continuado com minha vida normal, mas é como dizem, agora dou uma boiada para descobrir a verdade sobre este mistério.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤPedro Garcia
Passos na Areia
ㅤㅤㅤㅤJá fui um homem feliz, bem sucedido na vida. Já tive amigos, amigos verdadeiros, já tive amantes, romances inesquecíveis. Vida perfeita, digna de inveja, que não passava de pura ilusão.
ㅤㅤㅤㅤCaminhei por toda uma vida. Passos lentos e curtos dei sobre um caminho retilíneo e sólido, ao menos me parecia. Vez ou outra deixava marcas para que, no futuro, alguém seguisse meus passos.
ㅤㅤㅤㅤPor todo o caminho conheci gente, conheci lugares, provei de sensações. De repente, tive que andar mais rápidos. Meus passos não eram mais tão firmes e o caminho não era mais tão reto. Vezes escorreguei e caí, mas me levantei; ora era ajudado, ora não.
ㅤㅤㅤㅤTive de tomar decisões incertas, fiquei indeciso várias vezes. Cada vez mais, tive de acelerar.
ㅤㅤㅤㅤMeu caminho está terminando. Finalmente poderei descansar. Mas agora vejo que tudo que fiz foi caminhar na areia. Tudo o que conquistei na vida deixou marcas, marcas as quais são apagadas pelo vento, assim como são os passos na areia.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤPedro Garcia